Thursday, December 12, 2019
REFLEXÃO

A INDIVISIBILIDADE DO POVO GUINEENSE

Novembro 09, 2019
  

“O meu partido é a Guiné-Bissau”– Fernando Casimiro (Didinho).

Será que podemos classificar um povo segundo a sua identidade étnica? Acho que sim, mas a minha educação africana me impede, pura e simplesmente, de imaginar que a etnia é uma identidade. Eu nasci e cresci com os meus irmãos, a questão étnica é completamente inexistente nas nossas conversas. O mais incómodo, e o mais perigoso das conversas de classificação social é o diálogo sobre a religião ou as regiões de um país tendo como pano de fundo factores de divisão ou exacerbação de preconceitos negativos.

A liberdade de expressão é sagrada. A liberdade de exprimir sem responsabilidade representa um perigo para toda a sociedade e é uma arma contra a identidade de um povo.

A identidade do povo da Guiné-Bissau é a identidade conquistada com o derramamento do sangue de muitos guineenses durante a luta de libertação nacional.

Penso que Cabral não questionou se os muçulmanos ou os católicos eram mais importantes para ganhar a guerra do que os outros, ou, para beneficiar das vantagens que resultariam da vitória na luta contra a dominação estrangeira.

A nossa identidade resulta da composição de todas as culturas e todas as tradições étnicas do nosso país. Se um desses aspetos for posto em causa, a identidade guineense perde a sua base e, quando uma identidade perde a sua base, todas as prerrogativas para uma vida estável perdem a sua essência (caducam).

Facebook

É incontestável que o Facebook é um espaço plural de trocas de ideias e de manifestação da liberdade de expressão mas, para a sociedade guineense esta liberdade de expressão está a tornar-se um perigo em crescendo. Não vou citar nem sequer lembrar as pessoas que passam dias ou horas em “directos” a fazer abordagens políticas, de que o povo é indivisível; e que os políticos são passageiros, mas o povo resta, sempre, como um todo.

Na Guiné-Bissau o percurso acadêmico é quase uma identidade pessoal (eu sou licenciado nisto, naquilo, eu sou doutorado em direito), mas será que a identidade pessoal é sinônimo do saber absoluto, não discordo, mas duvido, a identidade acadêmica, não constitui a identidade Nacional. Um país não se identifica com os quadros formados que dispõem, mas pela capacidade da inteligência coletiva dos seus quadros em criar uma dinâmica propicia a criação de riquezas que trará o bem-estar para toda a sociedade.

A configuração dos intelectuais guineenses no Facebook é diversa refletindo níveis académicos multiformes tendo cada um a sua particularidade. Mas, o arcaboiço acadêmico não constitui em nenhum caso obstáculo à liberdade de opinião, mas, é sim, o reforço da capacidade de aprender e saber transmitir conhecimentos e experiências. Essa é a grande contribuição para a manutenção da identidade nacional. Mas neste preciso momento, pessoalmente assisto uma festa – a do egocentrismo, em que se misturam a estupidez, cobardia, sem esquecer as identidades arrogantes e pretensiosa dos intelectuais desonestos.

Considero que a maioria desses debate no Facebook constitui um perigo para a nossa tão frágil democracia. Não devemos esquecer que os vícios intelectuais, não são nunca e nem totalmente independentes dos vícios morais; cada interveniente vai apoiando a sua identidade social e o seu interesse pessoal, sem questionar a identidade colectiva que constitui a base sólida de uma nação!

Não podemos ler e nem ouvir os intelectuais que sofrem de amnésia histórica dos fundamentos da identidade indivisível da nossa Pátria amada. A nação guineense é sagrada, merece respeito dos que pretendem defendê-la dos males profundos de que sofre. Já temos uma classe política centrada nos seus apróprios interesses, e hoje, com as redes sociais, construímos uma classe dos intelectuais egocêntrica, obcecada, a tentar captar a atenção das pessoas de uma maneira competitiva com o objectivo de mostrar que sabem mais e que são os filhos mais sagrados da Guiné-Bissau.

A utilização de vídeos “em directo”

A utilização abusiva e inapropriada de vídeos “em directo” nas redes sociais constitui um perigo enorme para a nossa frágil democracia. Não devemos minimizar as querelas dos vídeos “em directos”, porque a palavra é muito potente; uma só palavra pode mudar uma vida assim como pode destruir uma nação inteira. A história recente assim como as histórias mais antigas nos deviam servir para nos ensinar a ter cuidado. Temos o caso do Ruanda com a guerra tribal. Na Alemanha com o nazismo nasceram as propagandas que fomentaram ódios, divisões que conduziram a muitos milhões de mortos.

A Guiné-Bissau tornou-se numa peça de teatro mediático nas redes sociais, onde os actores nos obrigam a assistir e comentar as partições, se pela aventura não estamos predispostos a participar e afastamos do debate, somos visados.

O silêncio tornou-se suspeito. Quem não tem uma opinião, você torna-se suspeito de defender uns e estar contra os outros.

Há dificuldade de diferenciar uma informação útil de uma propaganda partidária. É comum ao processo democrático. Obter essa garantia e esclarecimento entre as das vertentes é o trabalho do chamado quarto poder, ou seja, “a Imprensa”. No caso típico da nossa democracia digital desordenada, onde se confunde a liberdade de expressão, com a liberdade de fazer a propaganda em prol dos interesses privados, uns a procura de reconhecimento intelectual, outros a defender os amigos dos amigos talvez para conseguir uma recompensa qualquer; e aqueles que concordam com as ideias que são, em grande parte, perigosas para a coesão nacional, participando com a colocar “gosto” em tudo o que veem nas redes. Alimentam essa máquina propagandística que põe em causa a nossa identidade nacional.

A imprensa

A imprensa nacional, os intelectuais credíveis, os Jornalistas respeitados devem e têm por obrigação participar no debate não para impor uma visão ou tentar justificar as idiotices que circulam nas redes sociais.

O trabalho da Imprensa é moderar, trazendo os factos reais para anular os debates infundados; sensibilizar os menos dotados intelectualmente sobre os riscos que corre a nossa democracia tão frágil, realçando a explosão da identidade nacional que se propaga nas redes sociais que poderá um dia ganhar a nossa praça pública.

Dispomos de uma biblioteca digital que é recheado de informações interessantes sobre o perigo que representa a má utilização da propaganda nas redes sociais. O exemplo recente do massacre dos muçulmanos por budistas na Birmânia; a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos da América; Bolsonaro no Brasil, que foram eleitos com base nas propagandas nas redes sociais e que a imprensa brasileira assim como a americana não fizeram o trabalho deles para esclarecer a opinião pública sobre os riscos que a propaganda nas redes sociais tinha para a democracia. O Brexit inglês, são todos frutos do mesmo modelo de propaganda digital.

Vivemos uma época formidável da revolução digital, onde queremos tudo, imediatamente, à cada pequena informação, assistimos, imediatamente a corrida dos “diretos” nas redes sociais, onde cada um, faz a sua análise, sem antes averiguar as informações devidamente para reduzir os riscos de engano.

A Guerra de informação digital deu espaço ao sector político para atacar um campo sagrado “a identidade indivisível Guineense”. O pioneiro do modelo digital da Guiné-Bissau é Fernando Casimiro, vulgo Didinho, que tem esta frase rica: “O meu partido, é a Guiné-Bissau”.

Devemos todos inspirar-nos nesta frase nas redes sociais cada vez que julgamos ser detentores da verdade absoluta, uma vez que a única verdade que existe é que todos nós somos filhos da Guiné-Bissau. Devemos identificar como membros do “Partido Guiné-Bissau” antes de sermos membros de qualquer partido político.

INDJAI Adulai