Thursday, December 12, 2019
REFLEXÃO

CRISES, UM POVO, UMA PÁTRIA – ERROS REPETIDOS

Junho 18, 2019
  

Por: Humberto Monteiro

Com o cair do pano das eleições legislativas, o normal é que os guineenses se empenhem noutras tarefas do quotidiano, mas de interesse nacional, que não tenham nada a ver, directamente, com políticas partidárias, as disputas pela conquista do PODER POLÍTICO, que em democracias como a nossa é tão só a expressão da vontade da maioria através dos governantes.

Depois das eleições eram esperadas mudanças positivas no país com a conclusão do processo e o funcionamento dos poderes executivo e legislativo em novos paradigmas. Mudanças, não aceleradas, mas paulatinas, uma vez que não se poder fazer tudo de um dia para outro neste país que vive essencialmente da ajuda externa e falta muita coisa nos sectores elementares da vida nacional. Efectivamente, para a maioria dos cidadãos, como se diz à boca cheia em todos os pontos do país, “kampu kinti” (leia-se a conjuntura está difícil). Daí que, o cidadão comum não tem tempo a perder com o que se passa nas sedes dos partidos políticos, quer dos vencedores, depois da euforia da vitória, seja dos derrotados, passada a onda de desagrado e das contestações das contas e a subsequente preparação para assumir as consequências que advirão nos próximos tempos até a realização do escrutínio da XI Legislatura daqui a quatro anos.

Mas, contudo, se por um lado o advento das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, designadamente, o uso dos telemóveis trouxe algo bom na Guiné-Bissau no relacionamento entre os cidadãos, entre a cidade e o campo, o uso que hoje em dia se faz deles, nomeadamente, nas redes sociais deixa muito a desejar. Enquanto para muita gente as redes sociais são usadas para trocas de ideias, debates, esclarecimentos, circulação de informações úteis, para muita gente é espaço para práticas indecorosas, distribuição de impropérios, calúnias e difamações, sem qualquer respeito à dignidade da pessoa humana. A liberdade de expressão e de opinião extravasa todos os limites do respeito mútuo e da cordialidade que fazem do guineense diferente dos seus homólogos de outras bandas do continente e não só…

Se por um lado se compreende a preocupação dos cidadãos, a maioria que tem acesso aos telefones inteligentes, que permitem fazer circular informações imagens e som em tempo real, com a preocupação de fazer saber o que se passa ao seu redor, no seu espaço de amizade, de convivência, e no mundo em geral, olhando ao reverso da medalha observa-se que, para muitos, é simplesmente um espaço para servir interesses inconfessos, espalhar confusões, fazer circular rumores que desestabilizam emocionalmente qualquer cidadão, que depois das crises recorrentes que se sucederam e que viveu no país, actualmente almeja apenas viver tranquilo num ambiente de paz com todos os seus irmãos amigos e conhecidos sem distinção de sexo, cor, raça ou credo.

É um grupo de gente permanentemente insatisfeita, que se presta a fazer jogos para servir ALGUÉM que só eles sabem definir. É gente que vive, bem, em ambientes de instabilidade, e, mal, em conjunturas de estabilidade; levam e trazem recados da desgraça alheia, ou, atiçam desentendimentos para tirar proveitos. Quanto ganham? Certamente muitas coisas. Dinheiro de sangue. A não ser assim, não havendo ganhos, não se dedicariam a um serviço tão baixo quanto negativo.

A ilação que se pode tirar é que, a esse tipo de pessoas, faltam escrúpulos e sentido de interpretação da realidade e da verdade dos factos em bases transparentes e equidistantes de posicionamentos político-partidários, ou, de índole tribal ou de qualquer outro preconceito anti-social.

Hoje, todos os guineenses, salvo poucas excepções, querem e defendem todas as causas que levam a instauração de uma paz duradoura no país sem espaço para a instauração de crises que possam conduzir à estagnação da Guiné-Bissau que, depois de mais de 40 anos, como país soberano, ainda marca passos em cadência lenta, aparentemente com duvidosa propensão ao progresso, condição que desacelera o seu passo no concerto das nações que pugnam por um desenvolvimento harmonioso.

A história repete-se sempre e ninguém duvida já que o guineense não aprende com os erros do passado. Foram identificadas pessoas na praça pública, que só se sentem bem quando a Guiné-Bissau vive em situação de crise. Orquestram e vivem no centro das intrigas que ajudam a urdir em torno e no centro do poder independentemente da sua expressão. A crise político-militar de 7 de Junho de 1998 que se prolongou até Maio de 1999; a crise que se seguiu ao golpe de estado de 12 de Abril de 2012, e, a última despoletada na sequência da exoneração de Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC, do cargo de Primeiro-Ministro em Agosto de 2015, são provas dessa triste realidade.

Depois das eleições de 10 de Março passado, a crise que se instalou no parlamento em consequência da incapacidade dos deputados das seis formações políticas com assento parlamentar concluírem a formação da Mesa da Assembleia Nacional Popular. Doutra parte a recusa do Presidente da República nomear o Primeiro-Ministro tendo em conta os resultados eleitorais, veio confirmar todos os cenários que têm sido descritos como expressões das manhas do guineense – a sua forma de pensar e de agir em situações particulares… Os jogos de interesses que conduzem a guerras intestinas (em muitos casos mortais) entre os actores políticos… As diferentes definições dadas aos INTERESSES SUPERIORES DO POVO… E… E… o verdadeiro lugar em que se coloca a Nação e a Pátria, no quadro das estratégias e tácticas no âmbito do exercício do poder em nome do Povo, pelo Povo e para o Povo, não deixa muita margem para dúvidas.

O POVO APESAR DE SER QUEM ORDENA NA DEMOCRACIA, NO NOSSO CONTEXTO É O MENOS IMPORTANTE NA ESCALA DAS PRIORIDADES DO POLÍTICO RECÉM-CHEGADO AO PODER.

Cada crise que passa na Guiné-Bissau deixa patentes desilusões, desilusões originadas pela actuação dos protagonistas que no afã de revelarem mais do que podem dentro dos seus limites humanos, são desgastados, usados, desfigurados pelos MEDIA, como cidadãos, primeiro, subsequentemente como caudilhos. No calor da contenda, no fragor das disputas, não se notam esses factos perniciosos… Os sonhos são muitos e dourados. Mas, quando os ânimos esfriam, as coisas assentam nos devidos lugares o despertar pode ser doloroso, podem até rolar lágrimas silenciosas de impotência e arrependimento por não ter invertido a marcha caminho a tempo para garantir ganhos ora perdidos.

O futuro dirá…